Seio à mostra,braço erguido!

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31/05/2013 por Marcha das Vadias de Curitiba

Seio à mostra, braço erguido!

Vênus e Vadias

por Iuska Wolski

 

Antes de começar, preciso desfazer um equívoco sobre o papel da arte na história: A arte não é um reflexo do pensamento vigente de uma sociedade, a arte é um sintoma, ela não serve para expressar imageticamente um pensamento, ela é parte constituinte e agente transformador desse pensamento. Esclarecido isso, podemos começar essa conversa.

Essa semana vi um rapaz (desnecessário citar que era jovem, branco, cissexual de classe média?) dizer que “Mostrar os peitos na Marcha das Vadias é como fazer greve de fome contra a anorexia”, seguido de dezenas de comentários raivosos de terceiros como “se auto intitulam vadias e não querem ser tratadas como tal”. Como educadora em formação e feminista achei que valia a pena tentar explicar a esse rapaz o porquê dos seios a mostra que chocam tanto essa nossa sociedade cristã tão puritana (puritana quando convém, né?).

Bom, então proponho aqui uma pequena viagem pela história da arte pra explicar porque mostrar os peitos na Marcha das Vadias é não apenas válido, mas necessário (e não vou nem comentar a completa insensibilidade a respeito da anorexia, que é uma doença muito séria, que, alias, é fruto de modelos de beleza absurdamente opressores).

 

A mulher mostrar os seios deliberadamente, consciente de sua nudez, e a expondo na condição de sua dona completa, confgura uma relação de poder completamente diferente: Não se trata mais de ser colocada para observação e contemplação masculina, é uma postura de afronta e empoderamento. E isso é uma discussão nem um pouco nova.Aliás, é mais antiga que o próprio feminismo como o conhecemos.

Nas artes uma Vênus não é apenas a figuração da deusa Afrodite, uma vênus representa (assim como a deusa representava na mitologia) o símbolo máximo de beleza feminina. Durante muitos séculos a vênus foi um ideal mitológico, mas isso começou a mudar em 1538, quando Ticiano pintou a Venus de Urbino:

Não se sabe quem foi a modelo para esta tela, mas é evidente que se trata de uma vênus (esta mulher tem os padrões de beleza renascentistas: Cintura larga, ventre arredondado, seios pequenos). A presença de criadas, ausência de outros elementos mitológicos e a cena interna leva a crer que não se trata da deusa Afrodite, e sim de uma mulher. Somente este fato já faz essa pintura ser revolucionária, pois tira a beleza do Olimpo e a traz para a terra, mas Ticiano foi mais longe…

Uma tela é uma composição, cada elemento presente nela tem um significado preciso (desde o tipo de perspectiva, o arranjo de cores, tipo de pincelada, e, claro, as figuras), não se põe nem um ponto preto em uma tela sem que isso venha de um amplo historico de significações. E essa tela não é diferente. Não falarei do significado das rosas,do cachorrinho ou das criadas procurando por roupas na arca, vamos focar na vênus: Ela está completamente nua e consciente de sua nudez (está tapando o sexo com a mão, Afrodite, assim como Eva, não era consciente de sua nudez até que a ninfa da primavera a cobrisse com um manto de flores, ou Eva provar o fruto proibido). A maneira como ela esconde seu sexo e encara o espectador fez dessa tela uma afronta ao homem da renascença: A mão da vênus com os dedos dobrados para dentro da coxa são uma sugestão forte de masturbação, agora pense isso em uma sociedade onde sequer se cogitava o prazer sexual feminino. Esta vênus, pintada em um ambiente interno, cercada de elementos que representam a fidelidade marital (cachorrinho, por exemplo) sugere que a mulher pode ter prazer sexual no casamento, rompendo divisão entre esposas respeitáveis e servas do amor (o nosso contemporâneo “mulher pra casar” e “vadia”).

Ticiano construiu essa tela a partir de uma vênus de 1510, de seu mestre Giorgione

Nesta tela também vemos a mão transgressora, mas mais do que isso, o braço erguido comumente significava disponibilidade sexual, então, esta vênus provocante era uma das “mulheres do prazer”, mas não havia problema, pois esta vênus não é uma mulher ordinária, ela não habita entre os homens, ela é uma Deusa (até o século XIX somente deusas e ninfas ficavam nuas em ambientes externos).

Nesse ponto vocês devem estar se perguntando o que isso tem a ver com a Marcha das Vadias, calma, já chegamos lá! Vamos pular 300 anos na história e ir para uma pintura muito conhecida e amada por qualquer revolucionário, e que, para mim tem uma carga ideológica ainda maior (e se você é mulher e feminista, também vai sentir quando eu terminar de explicar).

A Liberdade Guiando o Povo (1830) de Delacroix mostra a vênus da Revolução Francesa, deusa em sua magneficência, humana em sua robustez de mulher do povo, que marcha descalça sobre a morte: cadáveres de ambos os lados da batalha que não foram em vão, que servem de pedestal para a passagem da tão sonhada Liberdade. Seio nu, braço erguido.

 

Não se trata em absoluto de uma imagem erótica, os seios a mostra vêm para dar caráter de vênus a essa mulher do povo ao mesmo tempo que transforma ela, a propria Liberdade no símbolo máximo de beleza (e sabemos que é a liberdade  não pelo nome do quadro, mas pelo barrete que ela usa na cabeça, que tinha essa conotação). Correndo o risco de ser romântica demais (e o quadro, inauguração do movimento romântico me permite) digo que esta vênus é o que temos de mais próximo de nós, Vadias: A liberdade na cabeça, o seio sem censura, as armas nas mãos e marchando corajosamente a frente de uma revolução.

 

Feito esse parentesis, vamos pular mais 30 anos, para 1863, quando o pensamento moderno já vinha emergindo do romantismo. Antes de falar da próxima vênus é preciso dizer que nas artes os tema mitológicos praticamente desapareceram das vanguardas, agora o que se pintava era o dia-a-dia do homem moderno, os piqueniques, os bailes, a boemia francesa, a nova sociedade industrial. E é nesse contexto que Manet pintou Olympia:

 

Como vocês devem ter percebido, Olympia é uma releitura da Venus de Urbino, e é ela quem nos possibilita entender o tratamento do corpo e sexualidade feminina que aflora no séc. XIX. Esta vênus, agora já completamente disassociada da deusa Afrodite (a não ser pela referência ao quadro de Ticiano) era uma cortesã famosa de Paris. Sim, Manet colocou como ideal de beleza de sua época uma prostituta. Olympia tapa seu sexo demonstrando a consciencia de sua nudez e isso não a envergonha, ao contrário, ela encara firmemente o espectador, mas não como Urbino encarava, não sugestivamente, ela desmascara seu voyeur. Olympia está nua, sabe que está nua, sabe que esta sendo observada e se coloca em observação. Percebem a diferença entre ser contemplada furtivamente, ser posta para o olhar masculino e colocar-se no foco da atenção?

A criada lhe entrega um ramalhete de flores, presente comum para agradecer os serviços prestados pela cortesã, essa vênus não nega seu ofício, não nega sua sexualidade, Olympia é completamente dona de seu corpo. A fita no pescoço serve para ressaltar a existência da cabeça, é impossível deixar correr livremente o olhar do rosto para o resto do corpo com naturalidade como acontece nas vênus renascentistas. Faça esse exercicio, compare as telas e você perceberá que, se antes a atenção ficava toda na mão sugestiva do centro do quadro, agora o olhar de Olympia obriga quem a observa a se revelar, tira o voyeur da sua condição confortável de devorador do corpo. Pode parecer besteira pra gente, mas esse quadro escandalizou os salões de arte, a ponto dos senhores quererem perfura-lo com suas bengalas! E tudo isso só porque ela não deixa o homem que a deseja sair anônimo!

 

Olympia, essa vênus prostituta, que exercia sua sexualidade, inteira e única dona de seu corpo nos mostra a diferença e a importância de subverter os postos sociais que nos impõem. Mostrar os seios na Marcha das Vadias é mais do que apenas criar visibilidade e destruir fetiches, Mostrar os seios na Marcha é nos apropriarmos deste corpo que é colocado pro prazer visual alheio e fazê-lo nosso, mostrar a diferença gritante entre um corpo político e um corpo sexual, é fazer com que nossa cabeça e nosso olhar denunciante afugente a visão estupradora. É nos colocar no lugar da liberdade de Delacroix, onde o erotismo desaparece diante da grandeza de um ideal. Ser uma Vadia é isso, é ser deusa, é ser humana, vênus de arma na mão,  Olympia de seio a mostra e braço erguido!

 

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3 pensamentos sobre “Seio à mostra,braço erguido!

  1. Sofia Laureano disse:

    Encontram-se revistas que vendem nudez feminina em todas as bancas. Performances artísticas e sexuais são (ou deveriam ser) profissões legalizadas. Posso então vender meus seios, mas não posso vesti-los? Meu corpo é tão somente uma ferramenta do capital?

  2. mellaroch disse:

    Olá,

    Excelente seu texto, professora. Sua clareza de ideias e fluidez lógica são admiráveis.

    Eu gostaria de deixar aqui uma pergunta, sem nenhum tom de criticismo, ora seja eu leigo no tema da história da arte.

    Comparando as pinturas das Vênus com a pintura de Delacroix, não pude Deixar de notar que, apesar da patente semelhança, o ambiente circundante das mulheres representadas (a meu ver, o contexto), é completamente diferente das outras.

    Enquanto as Vênus estão languidamente estiradas em divãs ou camas – atitude sensual, feminina, a Liberdade está em pé, rígida, de braço erguido como uma líder masculina. Em segundo lugar, noto na pintura de Delacroix a preponderância da masculinidade através das inúmeras representações simbólicas do símbolo fálico: as armas. Interpreto disto que a Liberdade está ali masculina, pois até ela empunha uma arma. Mais marcante ainda, um dos homens à esquerda segura a arma em posição definitivamente fálica.

    Como podemos interpretar a presença destes símbolos nesta pintura? Seria esta uma representação da clássica “inveja do pênis” de Freud? Seria uma ironia crítica do pintor ao mostrar um batalhão de homens lutando másculos, com uma mulher os liderando e se impondo com o seu símbolo, os seios, à mostra (caso em que, qual a razão de ela ter um “falo” ela também)?

    Muito obrigado!

    Felipe Giovanoni

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