Vadias na escola

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04/07/2013 por Marcha das Vadias de Curitiba

 

 

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Por Jussara Melo

 

A Marcha das Vadias foi convidada a fazer uma fala no colégio Estadual Victor Ferreira do Amaral, a principio tínhamos a informação que uma aluna levou o tema pra sala e gostariam de passar mais informações sobre a marcha para todo o colégio, mas o que não sabíamos, era que alguns outros alunos e uma professora gostaram da proposta e fizeram cartazes sobre a marcha e colocaram na escola, alguns cartazes foram retirados por alunos, houve muito burburinho na escola e por facebook, questionando a atitude do colégio em permitir tais cartazes sobre a marcha das vadias, foi então que nos mandaram o convite, viram a necessidade de ter pessoas que militam na marcha das vadias para esclarecer aos alunos e demais professores.

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Eu e o Fabricio chegamos no colégio e para a nossa surpresa quando nos apresentamos, fomos muito bem recebidos pela Diretora e Pedagoga, estava tudo preparado, salão, som, data show e todo o colégio sabia que estaríamos ali naquele dia.
Cartazes nos corredores feitos pelos alunos anunciando a palestra, cartazes explicando como a marcha surgiu, outros com fotos dos protestos pelo mundo, outro bem grande com a frase que muitas vadixs gostam, inclusive eu: “Se ser Vadia é ser livre, então somos todas vadias”.
Tive vontade de chorar, só me controlei porque os alunos não me entenderiam chorando (risos).

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A principio eu e o Fabrício imaginamos que iriamos falar com duas turmas, mas acabamos falando para cerca de 300 a 400 alunos.
As primeiras turmas a conversamos foram do ensino médio técnico e após o intervalo, de primeiro ao terceiro ano do ensino médio, cada fala foi de aproximadamente 45/50 minutos.
O lindo também foi ouvir da pedagoga que seria bom que nós fizéssemos uma fala rápida na sala dos professores, cerca de 10/15 minutos bem rápidos sobre quem são as vadias e vadios no mundo, em Curitiba e claro o convite foi deixado a eles para participar.
Dizemos sempre que feminismo é desconstrução da educação machista e foi com esta linha de pensamento que comecei a fala com aqueles adolescentes, desconstruindo a visão sobre a “Vadia”, explicado como a marcha surgiu levantando a questão da culpabilização da vítima em casos de violência, principalmente sexual.
Os ânimos e brincadeiras diminuíram muito, o olhar deles, pelo menos da grande maioria, era de atenção às falas que viriam.
Dito quem são as vadias na sociedade e como elas se levantaram para o mundo, parti para os outros questionamentos que levantamos na marcha, a nossa educação machista sobre os papéis que a sociedade determina para o que é ser um homem e o que é ser uma mulher, fiz links sempre para a educação que recebemos na infância, como brincadeiras condicionam as pessoas a se enquadrarem dentro deste padrão e como quem não se encaixa sofre.

Quem não se encaixa sofre e quem acredita que esta encaixado também pode sofrer violência e foi com este pensamento que contei o primeiro assédio sexual que sofri, aos 11 anos. Contei que eu acreditava que só mulheres com minissaia sofriam estupros e assédios, por que estas “pediam”, acreditava nisso até acontecer de ser assediada por um amigo da família e eu estar usando uniforme do colégio, falei que fiquei com medo de contar para os meus pais por medo do julgamento deles, por medo de me perguntarem o que eu fiz para provocar. Dividi com eles a minha dor daquele assédio para que entendessem como esta educação ensina mulheres a não serem estupradas, mas não ensina homens a não estuprarem. O clima sempre fica tenso após um depoimento de violência, com a segunda turma o silêncio que tomou conta do salão foi impressionante, me deu a impressão que eles tinham realmente sacado de como esta educação é horrível.
Tons de brincadeira com assunto sério, em uma linguagem que eles falam, é assim que você conversa com adolescentes e então para quebrar o clima pesado sem fugir dos assuntos da marcha, bora falar de sexo com adolescentes porque eles também fazem né gente?
“O Machismo além de definir papeis e blá blá blá, dizer que mulheres e homens tem que ser assim e assado ainda tem a cara de pau de dizer que mulher não gosta de sexo. Que menina ai tem coragem de admitir que faz sirica/se masturba?” Perguntei.
Alvoroçados após esta pergunta, conversei sobre sexo com eles, levantado à questão de como o gozo as mulheres não é permitido, ou falado, como o desejo sexual das mulheres é reprimido e dos homens não, falando também que o corpo da mulher a ela pertence e que ela pode sim se tocar, se conhecer e principalmente se sentir preparada para transar, isto tanto homens quanto mulheres devem sentir-se preparado pra fazer. E nada como uma boa frase do funk da Valesca Popuzuda para explicar melhor que mulher goza e o corpo é dela, olhei para a pedagoga e perguntei brincando, “Posso falar palavrão?”, os alunos responderam “Sim” em alto e bom tom a pedagoga fez sinal que sim e então eu falei com todas as silabas “Eu dou pra quem eu quiser que a Porra da Buceta é minha” e “Minha buceta é o poder”.
Os olhares brilhando das adolescentes nessa hora é impagável ver que sentiram se livres e empoderadas por outra mulher falando sobre sexo com tanta naturalidade não tem preço.
Já que o assunto é “o corpo me pertence e eu modifico ou não como quero” porque não falar de LGBTs, principalmente sobre o T do LGBT que é tão marginalizado? Nossa bandeira na marcha de Curitiba também. Falei sobre os dados de violência, sobre como a sociedade agride pessoas trans* desde sempre negando-lhes direitos humanos de ser quem se é e como principalmente as escolas não estão preparadas para lidar com estas pessoas. “O Corpo é meu e eu o modifico a minha maneira, pessoas trans* só precisam do respeito e não de autorização para serem quem são”.
Falei também sobre mulheres negras, de como a mulher negra é muito mais sexualizada que as brancas e enfatizando que ainda sim existe racismo e que Curitiba é uma cidade extremamente racista.
Tudo esclarecido sobre o que é a marcha, olhei para as alunas que nos convidaram e perguntei, se tínhamos dado o recado, uma falou, “Pergunta quem é vadia”.
Perguntei e muitas lá levantaram a mão. Convite deixado pra marcharem com a gente foi feito, tenho a certeza que muitxs lá iram.
Colégio Victor Ferreira do Amaral, todo trabalhado na vadiagem consciente.

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