Manifesto – Mulheres Negras de Curitiba

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Somos mulheres negras e sentimos todo o peso, toda a opressão de viver em Curitiba a “capital europeia do Brasil”. Mesmo quando nascidas aqui convivemos com a pergunta, de onde você é? Porque não somos representantes do imaginário curitibano europeu, porque não carregamos sobrenome alemão, italiano ou polonês.
Curitiba possui a maior população negra dentre as capitais do sul do Brasil, contando com mais de 23% da população formada por negros, mas onde estão estes negros? Que não estão ocupando os espaços de poder na Câmara Municipal, no judiciário? Que não estão representados nos cargos de docência das universidades? A verdade é que somos o passado que Curitiba quer esquecer, somos aquilo que o governo esconde na periferia, nas favelas.
Para aqueles que teimam em afirmar que o racismo não existe, nós somos a expressão viva do contrário. Somos as mais pobres dentre a população; somos aquelas que não são escolhidas nas entrevistas de emprego, por não possuir o “perfil” da empresa; aquelas que são atendidas por último nas maternidades, por acreditarem que somos mais fortes que as mulheres brancas; somos as que possuem os trabalhos mais precarizados e os menores salários; somos aquelas que criam os filhos sozinhas; aquelas que perdem os filhos para a violência policial e para os presídios; somos hipersexualizadas; somos “da cor do pecado”; somos aquelas que precisam dar “um jeito no cabelo”; somos as “macumbeiras”; somos as que morrem em decorrência de abortos caseiros; somos aquelas que não possuem feições delicadas; somos as que são só pra “comer” e para trabalhar; aquelas que não são representadas de forma expressiva na televisão; somos as que sofrem na pele a violência institucional; somos a carne mais barata do mercado.
Mas esse “kit opressão” que nos é imposto quando chegamos ao mundo com a pele escura, não é recebido sem resistência. Assim, quando nos tornamos protagonistas da luta diária contra o racismo que nos oprime, percebemos que além da herança maldita da escravidão, há uma herança de luta deixada pelos nossos antepassados.
Por isso somos a resistência dos quilombos; somos a resistência dos terreiros; somos a resistência do folclore, da capoeira; somos o nosso orgulho de ser negra que nem capitão do mato, nem lei da vadiagem conseguiu mitigar; somos as indesejadas que permanecem; somos as cotistas que enegrecem a UFPR; somos aquelas que não aceitam o racismo; somos as que lutam diariamente pela igualdade real; somos aquelas que batem tambor; aquelas que amam seu cabelo afro; somos as que se preocupam com a criminalização dos nossos pais, filhos e irmãos; somos a pele negra que amamos; somos aquelas que brigam por melhores condições de trabalho; somos as que lutam pelo aborto legal e seguro; aquelas que desmistificam a imagem sexual que nos é atribuída; somos as que exigem políticas de promoção da igualdade; somos aquelas que querem enegrecer o feminismo; somos MULHERES NEGRAS FEMINISTAS.
A marcha das vadias é composta de várias bandeiras, dentre elas a racial. Você que acredita que é preciso enegrecer o feminismo, venha marchar conosco em Curitiba e desconstruir a ideia de que o feminismo é branco e de elite. Vem pra rua Mulher negra!!

 

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